u•ni•ver•sal, sm. adj.
palavra como cesta, de novo. escobar e pluriverso, mas não tanto. branding acadêmico. análise do liberalismo em dois tempos: falso universal e totalidade. reinventar a roda para desprezar o passado.
1. relativo ao universo, à totalidade das coisas existentes.
na última news, me utilizei de uma bela metáfora de ursula leguin – a da linguagem enquanto cesta – para distinguir regimes diferentes de uso da palavra. graças a isso, tive vontade de abordar uma outra coisa quase que anexa a isso, a questão dos universais.
de cara, preciso dizer que há um endereço nas entrelinhas dessa discussão. isso me coloca num lugar evasivo de que não me orgulho muito, mas é o que é viável por agora. há muito, gostaria de fazer uma crítica estruturada à ideia de “pluriverso”, associada a um autor que circula muito em certos setores do campo do design: arturo escobar. nos artigos com essa palavra-chave, há muitas remissões à ideia zapatista de lutar por “um mundo em que caibam muitos mundos”, talvez por constar na dedicatória do próprio livro em que escobar desenvolve a ideia.
no entanto, nunca achei que valeria a pena fazer essa crítica1. ainda acho que não vale, e, por isso, este texto não é uma discussão sobre essa ideia. ainda assim, vou apresentar uma discussão que pode se desdobrar em uma crítica estruturada a essa ideia. a gente nunca sabe onde o texto vai parar; se isso acabar inspirando alguém que veja valor em passar por essa pena.
2. diz-se de uma proposição ou quantificador que afirma algo sobre todos os elementos de um conjunto
a ideia é intuitiva como o trocadilho: o “universo” seria uma imposição unitária, homogeneizante, enquanto o “pluriverso” abarcaria toda pluralidade, com muitas perspectivas sobre o mundo. eu confesso que acho o naming excelente – é bem catchy –e por isso mesmo creio que revela uma certa dinâmica atual que eu denomino de branding acadêmico. parece haver uma expectativa de que todo pesquisador cunhe um termo “original” para fazer sua carreira decolar: crescer citações, fazer palestras, participar de congressos, etc. em suma, circular entre os pares.
isso também se expressa num senso comum em programas de pós-graduação de que um doutorado deve apresentar algo “novo”. parece que todo mundo está jogando esse jogo – e umberto eco lá rolando no túmulo2. mas o que realmente me incomoda com o “pluriverso” – e essa sim é a questão central aqui – é que isso distorce de forma grotesca de toda tradição filosófica e também cria obstáculos para mudanças sociais. essa significação do conceito de universo como algo homogêneo, autoritário, enquanto a reprodução de um modelo, é simplesmente falsa.
primeiro, vou tentar elaborar isso da perspectiva filosófica.
3. que se refere a um conceito ou ideia que pode ser aplicado a todos os membros de uma classe.
há algo conhecido na filosofia como a questão dos universais. esse debate existe desde a filosofia antiga e busca definir qual é a natureza da relação entre as categorias – dos nomes, das palavras – que utilizamos e as coisas a que elas se referem. a ideia aqui é que, para que reconheçamos algo como algo que cabe na cesta daquela palavra, elas precisam compartilhar de alguma qualidade.
existem duas correntes principais – com matizes entre elas – para lidar com essa questão: o realismo e o nominalismo. grosso modo, de um lado, o realismo defende que há uma cesta metafísica de que casos particulares no mundo “tomam emprestado” essa característica para existir. de outro, o nominalismo defende que essas categorias – esses nomes – são cestas que criamos nós mesmos para agrupar esses fenômenos com que encontramos no mundo.
por exemplo, para os realistas, há uma qualidade metafísica de “cachorridade” – o universal – da qual todos os cachorros compartilham e, por isso, são cachorros. caso não compartilhem da “cachorridade”, não são cachorros; gatos não têm “cachorridade”. na interpretação dos nominalistas, há vários animais e aqueles que têm características semelhantes são agrupados nesse nome que inventamos, “cachorro”.
uma anedota filosófica para exemplificar: platão quis, um dia, definir o que é o homem. definir significa desenhar a cesta que vai agrupar todos os fenômenos que cabem naquela cesta. pois, platão definiu o homem como “um animal bípede sem penas”. ele acreditava ter encontrado um universal, pois ele teria conseguido desenhar conceitualmente a cesta universal em que caberiam (metaforicamente) todos os homens em particular.
afrontoso, diógenes entrou na academia – onde platão ensinava – e apresentou um frango depenado e bradou: “eis o homem de platão”. ora, um frango depenado é um animal bípede sem penas. contudo obviamente, não era um homem.
o que isso significa, em termos filosóficos? que platão criou um falso universal, pois diógenes apresentou-lhe um fenômeno (frango depenado) que, embora se enquadrasse em sua definição (ser um animal bípede sem penas), evidentemente era incomensurável e heterogêneo ao fenômeno que queria definir (homem).
4. que se aplica a todos, sem exceção; que é comum a todos os indivíduos de um grupo, categoria ou espécie.
seja da perspectiva realista ou nominalista, todo universal se expressa em seus particulares. ora, sabemos que um doberman e um chihuahua são ambos cachorros – a despeito de suas gritantes diferenças físicas, fenotípicas, biológicas, etc. não há absolutamente nenhuma contradição entre a pluralidade de expressões particulares de qualquer que seja o universal em questão. inclusive, muito pelo contrário, a pluralidade de particulares é condição necessária para que se possa definir um universal. não há universal monádico.
há, entretanto, o problema do falso universal. em alguma de suas camadas, as lutas contra a opressão são problemas dessa natureza. o desenvolvimento do liberalismo capitalista na europa, que estabeleceu as estruturas de propriedade patriarcal cisheteronormativa e do racismo colonial, criou um falso universal, porque definiu humanidade como o homem burguês europeu.
exemplo prático: “todo homem nasce livre”, diria john locke, um dos principais formuladores do liberalismo e defensor da “liberdade”. e ele estava certo – porque “homem” aí trata-se do falso universal criado pelo liberalismo. na sua lógica, se se tratar de um homem “primitivo”, de áfrica, não, ele não nasce livre, pois não é homem. na sua lógica, se se tratar de uma mulher, ela não nasce livre, pois não é homem. todos que exorbitavam o falso universal, eram menos-que-humanos e, portanto, desumanizados.
locke também diria que “todo homem é livre para firmar contratos”. inclusive para comercializar esses menos-que-humanos – coisa que ele mesmo fazia, como grande investidor no comércio inglês de escravos por meio da Royal African Company (“Companhia Real Africana”) e da Bahama Adventurers Company (“Companhia de Aventureiros Bahama”)3.
5. princípio, conceito ou verdade geral e abstrata.
o problema aqui não é o universal, mas o falso. a disputa sobre o que cabe nesses nomes não é uma questão lexical, denotativa ou lógica. é uma questão política. e é com base nisso que alguém poderia ainda defender o “pluriverso”, porque ele evidenciaria a dimensão política dessa pluralidade. mas é justamente com base nessa dimensão política que também descarto o uso dessa ideia.
como disse, parece haver uma desconfiança de que há um autoritarismo homogeneizante na ideia de “universo” ou de “totalidade”. mas será que há? vamos pensar mais ou menos no mesmo exemplo do surgimento do liberalismo.
o que poderia explicar o fato de locke, um ferrenho defensor da liberdade, advogar pela escravização de outras pessoas e participar desse comércio? será que o problema é simplesmente que ele acreditava em um “universo”? que ele carecia de “imaginação” para vislumbrar outros modos de vida?
todas essas explicações vagas, abstratas e psicologizantes ganham contornos muito mais concretos se tomarmos a totalidade das relações de acúmulo do capitalismo nos séculos 17 e 18. só é possível compreender a particularidade do contexto burguês europeu, compreendendo a sua articulação com as particularidades do comércio de escravos, do imperialismo colonial, do racismo, da opressão de gênero, entre outras, que compõem a totalidade do sistema mercantilista que desembocou no capitalismo – com o qual figuras como locke lucraram e muito, estabelecendo o domínio colonial em boa parte do mundo.
desse modo, compreender a totalidade nos permite compreender que o colonialismo, o patriarcado, o racismo, a cisheteronormatividade não foram “efeitos colaterais” do capitalismo. eles são as condições particulares necessárias para o aparecimento e consolidação do capitalismo como totalidade.
ou seja, não só não há contradição entre particular e universal, como só é possível compreender a totalidade a partir da articulação de seus fenômenos particulares. há um problema de várias correntes que se propõem “pós-modernas”4 em se limitarem às expressões particulares sem nunca fazer a articulação teórica necessária para ascender em abstração e denominar universais – como se isso fosse uma tarefa condenável de antemão. mas esse raciocínio é um falso problema, é um espantalho que serve para se posicionar o branding acadêmico como uma “solução” teórica falsamente nova.
para finalizar, creio que valeria notar que escobar iniciou sua incursão nas ciências humanas e sociais com o que ficou conhecido como “pós-desenvolvimentismo”, que surgiu nos anos 1990: uma crítica aos modelos de desenvolvimentismo. o que me parece curioso é que essa “novidade acadêmica” despreza toda contribuição teórica e organizativa das teorias da dependência desenvolvidas na américa latina, pelo menos desde os anos 1950. coincidentemente, nessas correntes estavam presentes pensadores marxistas que também fizeram parte das bem-sucedidas mobilizações políticas que foram silenciadas com a onda de ditaduras nas décadas seguintes.
fico imaginando por que desenvolver uma perspectiva fragmentária e avessa à articulação de totalidade, desprezando essas contribuições.
por várias razões. a principal delas é melancólica: é saber da futilidade de uma crítica dessa natureza. tenho certeza de que o esforço para tratar a produção de escobar a sério e estudá-lo para fazer uma crítica consistente não vai repercutir entre os pares do campo – já testei isso outras vezes. então, julgo que não vale o tempo que investiria.
sempre recomendo “como se faz uma tese” a qualquer pós-graduando. talvez a principal ideia de umberto eco nesse ensaio seja que uma tese não se caracteriza pelo tema ou pela “novidade”, mas sim pelo rigor metodológico. se qualquer coisa, essa ideia de que uma tese se caracteriza por uma “proposta inovadora” é um sintoma do neoliberalismo na pesquisa.
nem toda expressão pós-moderna. isso é uma confusão gigantesca por si só, mas basta dizer que há distorções de pós-modernistas e de modernos ortodoxos.





