as•som•bro, sm.
uma pequena crise existencial. experiência e obra. recomendações: dicionário, luz no verão, sublime e a tempestade, belo e agradável, rilke e o jovem poeta, jogo de cena e mãe!, um poema. fantasmas.
1. sentimento de espanto, admiração ou pasmo intensos, causado por algo extraordinário
nesses dias, estava na gráfica-escola1, refilando uns papeis e, como era de costume, a galera estava conversando. de repente, ouço alguém me chamar: “tu tem alguma coisa que te arrepie, edu?”. sem saber, igor2 me jogou numa pequena crise – prova disso é que esse episódio aconteceu há quase uma semana e cá estou eu escrevendo sobre isso.
fiquei meio atônito, sem saber bem como responder. “depende, tem alguma coisas… filmes, textos… mas depende do filme e do texto”, respondi tentando fingir que não tinha sido absorvido por um buraco negro existencial. daí em diante, fiquei matutando “o que é que me afeta assim?”. pensando bastante ao longo desses dias – associado a outras reflexões, de outras ordens – acho que cheguei à conclusão (provisória) de que são as experiências cristalizadas nas obras, mais do que a própria experiência, que me afetam3.
talvez, o que me arrepie desse jeito seja o sentimento do assombro. algo de tirar o chão de debaixo dos pés, de rasgar o sujeito ao avesso, de subverter o modo como compreendemos o que achávamos ter compreendido – e eu acho que é assim que eu definiria uma obra de arte.
nunca achei que iria fazer isso na news, mas o que se segue é, para todos os fins, uma lista de indicações de obras que me assombraram. espero que assombrem vocês também.
2. pavor relacionado a fantasmas, almas penadas ou coisas sobrenaturais
uma das primeiras coisas de que lembrei foi o verbete koinophobia do dictionary of obscure sorrows. o fato de ser um tipo de dicionário já revela uma certa ascendência dessa própria news ao canal, ainda que não tenha sido deliberada. definido rapidamente como “o medo de que você tenha vivido uma vida ordinária”, esse vídeo elabora um sentimento que me parece extremamente ambivalente: é tão apaziguador quanto desesperador. e é de uma poesia fascinante.
um outro exemplo vem de um vídeo do nerdwriter, sobre a pintura de sargent. em geral, os ensaios dele são muito bem elaborados e contornam as coisas de um jeito muito novo, mas é um aspecto muito específico do vídeo que me assombra. é quando ele fala dessa pintura carnation, lily, lily, rose, de 1885-6. o que me pega é o fato de que sargent ficou assombrado por uma luz específica, de uma hora específica do verão às margens do rio tamisa, e, ao longo de dois verões, ia para aquele lugar, naquela hora, tentar capturar essa luz. essa ambição, essa diligência.
já que estamos na pintura, vamos a esta menção de vladimir safatle a william turner. a essa altura da sua palestra, safatle está apontando como a estética já nos mostrou como nos comprometer com a superação de nós mesmos por meio da ideia do sublime.
sublime são esses objetos que são demasiado grande, demasiado outro (…) porque quebra a capacidade de esquematização da imaginação. (…) o que é sublime nesse caso é a capacidade que os sujeitos têm de, ao estar diante disto, que vai contra a a autopreservação dos sujeitos (…) só que eu me vejo preservado.
para dar o exemplo disso, ele conta que william turner, um pintor inglês de paisagens marítimas do século 19, estava a bordo de um barco que passaria por uma tempestade e pediu para ser amarrado ao mastro para que ele pudesse ver a tempestade de dentro para pintar.
3. aparição, fantasma; visagem
tem um texto de flusser me assombra e arrepia, intitulado a arte: o belo e o agradável. é meio maluco como eu tenho uma reação física quando o leio. como todo texto dele, cada vez que eu leio, descubro algo novo e sempre volta para mudar como compreendo o mundo. há muitas semelhanças com essa ideia do sublime; o que ele chama de belo é o que “aumenta o parâmetro do real", enquanto o agradável “é estar dentro do meu programa de experiência”. claro que há aí uma dimensão histórico-política, pois virtualmente toda a nossa arte hoje volta-se apenas para ser agradável.
aproveitando que flusser cita rilke duas vezes nesse texto – “é preciso que você mude sua vida” e “a beleza é o começo do terror” – deixa eu recomendar uma talvez meio clichê: cartas a um jovem poeta. é um título que já foi citado milhares de vezes e há uma razão para isso. a primeira carta que rilke responde a kappus é assombrosa. é violentamente honesta. li a carta uma única vez e há muito tempo, mas lembro muito bem de como ela me afetou, era um pranto que vinha do estômago. nesses dias, peguei o livro e só de passar o olho já senti de novo.
para não passar sem nenhum filme, lembraria de jogo de cena, de eduardo coutinho. já elaborei sobre como coutinho usa a imagem de maneira sofisticadíssima4, mas não creio que tenha falado da sensação física que ele me causou. eu lembro de mal conseguir ficar sentado enquanto assistia o filme – e isso é particularmente admirável considerando que ele tem praticamente um único enquadramento e são só entrevistas.
enquanto falava da reação física, lembrei de quando assisti mãe! de aronofsky. esse filme me assombrou por um bom tempo por causa disso; eu lembro de ter sentido assistir ao filme de cima do meu corpo, como se meus olhos tivessem sobrevoando minha cabeça. sei lá, não me peçam pra explicar.
para finalizar, já que falei de uma crise existencial, vale deixar algo que ora me tira, ora me joga em uma: fernando pessoa. em especial, essa declamação de tabacaria por abujamra.
às vezes, fico pensando como ler e assistir a essas coisas seja mesmo como conversar com os mortos. talvez, sejam esses nossos fantasmas.
esse é o projeto de extensão em que estou envolvido no ifpe; lá, trabalhamos com tecnologias gráficas “obsoletas” para fazer experimentações. veja o que fazemos aqui.
igor já apareceu nessa outra edição da news; vocês podem ver que ele sabe fazer perguntas. haha.
devo retomar isso em algum momento; acho que isso tem implicações bastante significativas em como eu relato e elaboro as coisas por aqui – mas isso exorbita o tema desta vez.






senti esse sentimento de assombro reassistindo Eraserhead com meu irmão semana passada. há até uma grande relação entre esse filme(e outras de suas obras) e o sublime. mas em respeito ao Lynch, não elaborarei.
legal ver o quanto uma pequena interação, inicialmente inocente, pode despertar uma infinidade de pensamentos na outra pessoa.
falo isso porque aconteceu diversas vezes quando me pegava pensando sobre tuas aulas (mesmo que elas não tivessem esse tom tao inocente assimkkkk) e me identifiquei demais.
muito massa, edu!