#27. sín•te•se, sf.
polêmica da teoria decolonial. os ataques ao “acadêmico” como sintoma. para além das divergências epistemológicas. defender a universidade – mas que universidade? o repúdio decolonial à síntese.
eu tive muita vontade de voltar a publicar há muito mais tempo, mas dois mil e vinte e seis tem sido com bastante turbulência. finalmente, parece que a páscoa ressuscitou até esta news. agora, é tentar correr atrás do prejuízo.
1. relato conciso e abrangente de um dado assunto; sinopse
ainda em janeiro, iniciou-se uma polêmica pública entre os intelectuais das ciências humanas. o epicentro foi a teoria decolonial e se desdobrou pelas polêmicas em torno de dois textos críticos: o grande fmi universitário, de vladimir safatle e contra nego bispo, de douglas barros, publicados na piauí e no blog da boitempo, respectivamente. coincidentemente, esses textos foram lançados com coisa de uma semana entre eles, o que poderia nos induzir a colocá-los no mesmo balaio – mas resista a isso. concordando com uma das poucas respostas consequentes nesse debate1, não há como comparar os dois textos: o primeiro é uma crítica muito mais produtiva.
todos sabem que as plataformas de mídias sociais não são o lugar mais adequado para construir entendimentos comuns. isso porque seu traço fundamental é a imediatez – o i sendo o prefixo de negação de mediação –, que é muito bem discutida pelos bons teóricos de mídia, de vilém flusser a byung-chul han, para não dizer de sociólogos, antropólogos e psicólogos. entretanto, saber disso não parece nos levar a buscar alternativas. por isso, ainda assim, permanecemos nesse ambiente e, conscientes ou não, internalizamos sua dinâmica própria de reatividade.
em alguma medida devido a isso, as reações a ambos textos foram enérgicas, para dizer o mínimo. isso remete um pouco ao que meu amigo rodrigo acioli apontou2: a predominância do rage bait. no entanto, de novo, não creio que isso se aplica aos dois textos que abriram a polêmica, pois me parece que isso era mesmo a intenção do texto de douglas3, mas está longe de estar no de safatle.
se raiva é a isca, o que surpreende é que parece que temos muitos peixes. houve ataques ferozes: ou não respondendo nada do que foi colocado, ou respondendo ao que nunca foi colocado. até mesmo quem concordava com a crítica de safatle aproveitou a onda; a construção retórica do título de um texto em particular sugeria que olavo de carvalho e vladimir safatle seriam polos simétricos. o espanto de ver esse título só não foi maior do que o de ler, já no primeiro parágrafo, a ostentação do número citações no google acadêmico4.
ainda assim, não foi nada disso o que mais me impressionou. gostaria de apontar uma repetição – um sintoma? – que talvez revele dinâmicas sociais mais profundas e aponte para consequências temerárias. não pude deixar de reparar que, das várias reações que vi pelo feed do instagram e em alguns artigos mais longos, havia uma rejeição mais ou menos violenta àqueles chamados de “acadêmicos”. é isso que gostaria de elaborar com mais calma.
2. processo intelectual pelo qual se forma um todo a partir dos elementos fornecidos pela análise
de maneira geral, a oposição que estava sendo feita era uma defesa dos autores decoloniais – sobretudo aqueles vinculados a comunidades e territórios, como nego bispo ou ailton krenak – como pessoas envolvidas com o “mundo real” em oposição àqueles que vivem só “na teoria”, na famigerada “torre de marfim” das universidades. uma oposição excessivamente simplista, é claro. mas essa leitura grosseira revela algumas das principais contradições da universidade em um país de capitalismo dependente, como é a nossa.
imagino que não preciso falar das inúmeras maneiras pelas quais a extrema direita ataca a universidade e a educação pública no brasil. mas, talvez, seja bom falar das suas motivações. ainda está em nosso senso comum a ideia – além, claro, da experiência concreta de vários de nós – de que a educação formal é um modo de melhorar a nossa qualidade de vida. mesmo que essa garantia socioeconômica venha sendo sabotada nos últimos anos, há uma outra dimensão subjetiva e emancipatória na educação. vários de nós lembramos de algum(a) docente que mudou nossa visão de mundo e nos deu ferramentas para lidarmos com a vida ou de como o encontro com pessoas de outras realidades sociais e subjetividades destruiu nossos preconceitos. é essa encarnação emancipadora da educação pública que, de um lado, motiva muitos de nós – às vezes, ao custo da própria saúde – e, de outro, faz com que a extrema direita tente destruir esses ambientes.
agora, a versão decolonial do ataque à universidade é uma coisa nova. digo “ataque” porque é disso que se trata mesmo. sob o disfarce de debate teórico, essas reações pintavam a universidade como uma instituição monolítica e homogênea, e que teriam como objetivo nefasto sepultar outras epistemologias. se qualquer um puser os pés em uma universidade5, fica muito fácil ver que essa representação é simplória, além de ridiculamente falsa. mas isso não é nem o maior problema; o maior problema é que a compreensão das dinâmicas sociais a partir dessa suposta “guerra epistemológica” deflete a atenção para longe das questões estratégicas.
deixe-me dar um exemplo. em algum desses debates, vi um entrevistado defender a perspectiva decolonial dizendo que, para os povos originários, o rio era um parente, não um recurso a ser explorado e isso, portanto, impediria os fenômenos climáticos extremos, como os que temos visto. não que eu discorde, mas não é necessário ser yanomami para defender a preservação dos rios. qualquer geógrafo minimamente responsável vai lhe dizer a mesma coisa, ainda que da perspectiva epistemológica (supostamente opressora) da academia. ou seja, ambos estariam contra o projeto de privatização de rios que governo federal estava empenhado em aprovar, não fosse a resistência liderada pelas comunidades indígenas.
me soa preocupante quando essa divergência epistemológica cria um abismo tão grande que impossibilita a aliança política para um fim não só necessário, mas urgente. por exemplo, quantos dos leitores de a vida não é útil apoiaram a ocupação da secretaria de educação do pará para garantir educação presencial para os povos indígenas? ou ao bloqueio do aeroporto de altamira contra a mineração no xingu? e a coisa fica ainda mais preocupante quando alguém como guilherme boulos – um ministro do primeiro escalão federal – instrumentaliza essa mesma representação da universidade para defletir críticas justas às atitudes do governo6.
3. fenômeno que consiste em fundir duas palavras separadas em apenas uma, sem que se perca seu valor semântico
a essa altura, você que está lendo deve pensar que eu defendo as instituições de educação pública, em particular as universidades e os institutos. mas também não é bem assim. eu não defendo esta educação pública, exatamente. ou seja, não acho que é uma boa ideia adotar uma postura conservadora, no sentido de conservar a instituição tal como está. ela não está boa; está, inclusive, muito aquém da responsabilidade social que as instituições de ensino deveriam assumir em um país de capitalismo dependente como o brasil.
durante a última greve da educação federal em 2024, foi como se tivesse saído da proverbial caverna de platão. eu passei por um processo de revelação acerca da atuação da comunidade acadêmica quando encarei uma desmobilização problemática entre colegas docentes. nesse processo, entrei em contato com críticas estruturais e históricas à universidade como uma instituição de reprodução de hierarquias sociais e lugares de privilégio, como aquelas feitas por álvaro vieira pinto e darcy ribeiro7. com isso, foi preciso reconciliar minha experiência com a universidade – que foi de expansão de horizontes e emancipação – com a ideia de que ela é uma instituição estruturalmente problemática. e, em alguma medida, por causa de nós docentes, com nosso habitus de classe.
isso quer dizer que entendo de onde vem essa crítica da “torre de marfim” que permeia muitas das reações dos que defendem a teoria decolonial – e, em alguma medida, concordo com ela. a universidade, de modo geral, realmente está apartada das demandas da população brasileira. realmente, é bem provável que uma boa parte da classe trabalhadora jamais pise em uma universidade, apesar do aumento de acesso com políticas afirmativas, auxílios e todas ações dos governos petistas – conquistas que não se tornaram reformas estruturais e vêm sendo corroídas desde 2016. é bem verdade que há aqueles que gostam de falar difícil8 e comentar das viagens que fizeram à europa nas aulas de história da arte9.
dito isso, do que nós precisamos não é de menos universidade, mas de mais universidade. todos esses problemas que os defensores da teoria decolonial localizam em questões epistêmicas é, na verdade, consequência de estruturas muito materiais que esvaziam as instituições de ensino: cortes de financiamento, métricas neoliberais de pesquisa, desvalorização da extensão, sobrecarga de trabalho, crescimento do “stalinismo de mercado”10, entre outras coisas. por outro lado, para que essas instituições se vinculem, de fato, à realidade do povo brasileiro – e pluralizem os saberes que circulam dentro dela –, é necessário mais financiamento, mais planejamento, mais concursos com políticas afirmativas, reestruturação de carreiras, regulação… ou seja, mais universidade.
a questão é que esse processo precisa ser politizado. ao contrário do que ocorreu até agora, por exemplo, com a expansão monstruosa da educação superior privatizada. sim, as universidades públicas se expandiram nos governos dos anos 2000, mas sabe quem se expandiu ainda mais? os chamados tubarões da educação, corporações brasileiras de ensino privado que são as maiores do mundo e hoje superexploram professores e degradam a qualidade da formação de mais de metade dos estudantes de nível superior, que são de ead11. uma politização nesse processo impediria, entre outras coisas, fenômenos curiosos como docentes servidores públicos que defendem implodir a própria instituição em que trabalham. por outro lado, estimularia uma comunidade acadêmica que se responsabiliza por seu papel social e expressa essa atuação para o seu entorno.
4. reação pela qual se obtém um composto mais complexo, tendo como base seus elementos ou suas substâncias compostas mais simples
quem leu ou ouviu nego bispo sabe que ele opõe o saber orgânico, vinculado ao território e às comunidades, com o saber sintético, produzido nas universidades e, segundo ele, apartado da realidade. nada contra alguns pares de conceitos para esquematizar o pensamento. mas me parece que nego bispo repudia o sintético – e, muitos dos que o citam, tenho certeza que o fazem. o repúdio ao “sintético”, entretanto, me parece indicar uma outra coisa aqui.
na tradição dialética, a oposição entre dois conceitos é fundamental porque a partir deles, nos valendo da prática filosófica, nós podemos formular sínteses. a síntese é um conceito de um outro nível, de uma outra natureza, de uma outra qualidade, que emerge da oposição dialética. a grande questão é que essa síntese só emerge quando concebemos os conceitos em movimento na própria realidade – como fazia, por exemplo, paulo freire. desse novo conceito, oriundo da oposição dialética, pode-se dizer um conceito sintético.
esta ambiguidade do “sintético” aqui é muito oportuna. o que me parece é que o modo como a teoria decolonial vem construindo a representação da universidade é violentamente antidialética, justamente porque se recusa a fazer uma síntese. ninguém é obrigado a ler a obra de hegel para estar autorizado a ser dialético, claro. pratica dialética quem quer que a teoria tenha consequências na vida social, porque o seu pressuposto básico é a práxis: articular a reflexão com a prática. por outro lado, construir uma representação estanque, monolítica, necessariamente vai tornar o pensamento mais apartado da realidade – o que me parece um contrassenso para quem defende os saberes orgânicos, orais, comunitários.
para além disso, eu não posso deixar de registrar a ironia de que muitas das críticas ao “academicismo” vieram de acadêmicos. claro que é, dialeticamente, possível criticar alguns dos aspectos da academia estando dentro da academia (é o que eu faço, por exemplo) – mas não é possível fazer isso antidialeticamente. parece que esses ataques à universidade não têm em vista sua própria superação, mas sim uma expressão deflacionária e autofágica que certos setores incorporaram como inevitável. dito mais claramente: o cinismo é, por vezes, tão violento que nem a comunidade acadêmica acredita na função social da universidade. a ironia é que aqueles da extrema-direita que querem acabar com a universidade, acreditam. e agem com base nisso12.
5. proposição que consiste em combinar a tese com a antítese para formar uma nova proposição, que supera a anterior, sem descartar as verdades em cada uma
esses ataques autofágicos do campo progressista à universidade – que aquela fala de boulos cristaliza muito bem – indicam o perigo de, mais uma vez, o fenômeno da decolonialidade se tornar mais um episódio dessa série enfadonha que é a sinalização de virtude13 política. ler, citar, postar nos stories – e, agora, defender esses autores nessa polêmica – parece ter se tornado um componente para consolidar uma certa performance14 de grupo, desvinculada de qualquer ação efetiva. ou, pior, enfatizando certo imobilismo cínico que só perpetua o fluxo do desejo de mudança para a extrema direita.
de fato, se a crítica que se desenha é de uma mera negação aos “acadêmicos”, toscamente representados com base em um senso comum – ainda que esse senso comum seja corretamente ressabiado com a instituição universitária, tal qual ela tem sido, grosso modo, construída até aqui – não há muito o que fazer se não atacar a universidade. e agir como se fosse possível conservar um modo de vida por fora de uma globalização imperialista de intensidade cada vez maior. a questão é que não é. com o acirramento das disputas globais que temos visto desde o começo dessa polêmica, me parece que ficou evidente que não é possível.
por outro lado, se há algum caminho para a autodeterminação, é fazer com que nosso aparato seja mobilizado segundo nossa própria determinação. isso só vai ser possível se a crítica reconhecer que muito do que se produziu de justiça social e emancipação no país veio de disputas internas a essa mesma instituição – articulada, inclusive, a movimentos sociais exteriores a ela. só vai ser possível se agentes dentro e fora da universidade ainda acreditarem que esta mesma universidade pode ser parcialmente conservada, parcialmente anulada e, enfim, superada, tornando-se um lócus de envolvimento, como diria nego bispo. e, isso, para todos os efeitos, é dialética.
neste vídeo, jones manoel faz um balanço da polêmica, enfatizando o texto de safatle.
ainda que o texto de douglas aponte questões extremamente problemáticas enunciadas pelo próprio nego bispo, como aquela relativa à palestina. nenhum dos textos que vi em defesa da decolonialidade tratou dessa questão. só o de jonnefer barbosa, que usou isso como um ataque a safatle (?), que o próprio respondeu em seu segundo texto, quem pensa abstratamente?
me refiro aqui ao texto de luciana ballestrin, publicado em seu próprio substack, intitulado entre olavo de carvalho e vladimir safatle, os estudos decoloniais (e eu).
no brasil, essa estatística ainda é, infelizmente, muito alta. mas vou chegar lá mais adiante no texto.
o ministro alegou isso em uma entrevista ao podcast três irmãos. sugiro ver esta resposta ou esta.
o primeiro, com a questão da universidade (1961) e, o outro, com a universidade necessária (1969). há muitos outros nomes nessa tradição. participei de debates sobre o de álvaro vieira pinto neste podcast.
não, sua avó não precisa conseguir ler sua tese, dissertação, nem seu tcc. não vou me delongar nisso aqui, mas a lógica do conhecimento científico visa à especificidade, não à generalização. muitas das críticas a um suposto academicismo não se trata de academicismo, só da falta de familiaridade com o discurso disciplinar específico. dito isso, que há academicismo, há. uma coisa não exclui a outra.
isso soa bem específico, né? mas qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.
é um termo de mark fisher. no capitalismo realmente existente, não há absolutamente nada de “eficiência”, mas uma supervalorização dos símbolos em oposição à dimensão material da vida. basta pensar no que é a especulação financeira hoje. na vida acadêmica, isso se expressa na quantidade absurda de relatórios e documentos que precisamos produzir sobre o trabalho que fazemos, de modo que corremos o risco de passarmos mais tempo produzindo os documentos do que fazendo o trabalho de fato.
segundo dados do censo da educação superior de 2024, divulgado no fim do ano passado. mais informações aqui.
sobre isso, recomendo muito esta fala de vladmir safatle.
falei dessa dinâmica no campo do design no texto ainda existe design(er) ativista? publicado em 2022 aqui.
olhe que eu apoio diversas acepções de performance, como disse aqui nesta outra edição da news. mas, nesse caso, é só a parte ruim mesmo.







Eu tô pra publicar outro texto tentando pensar isso tudo, mas vi ontem que ia sair um texto teu aí fiquei esperando. Agora vou voltar pra meu texto, mas queria só deixar uma nota de que o anti-intelectualismo precisa ser criticado porque tá completamente vazio. Parece aquele meme com um monte de homem aranha se apontando.